Eis que, em toda a sua majestade, o iniciado do Nougué decide pôr-se a refutar toda uma tradição de pensamento em uma única obra. Malgrado a falta do que fazer, pensa-se se poderia tê-lo feito de forma eficaz, de modo a, de fato, desestabilizar os princípios metafísicos, a lógica, a epistemologia, enfim, tudo o que dá base ao perenialismo. Mas não. Diante da sua grandeza (ao menos psicológica), ele faz mais um estudo com viés dogmático, agora inovando na crítica ao incluir Mário Ferreira e Olavo na categoria tão assustadora de perenialistas ou proto-perenialistas, pensadores estes que o rapaz ainda sonha em compreender minimamente. Essa gente enche muito o saco dos olavistas, é verdade, até porque os olavistas não aprenderam muito a pensar sem a ajuda do falecido professor. Observem, por exemplo, que algumas dessas cabeças delirantes ainda tratam como referentes intelectuais figuras como Sidney Silveira e Carlos Nougué.
E o que seria de esperar de alguém que se propõe a tomar algo como objeto de crítica e escrever sobre isso? Bom, claro que nada mais e nada menos do que o entendimento, isso me parece óbvio. Se já não nos bastasse a notória incapacidade do rapazola — que pode ser constatada vendo o seu episódio no Caravelas Podcast —, também notamos mais uma de suas incríveis habilidades: a total ignorância de metafísica. Bom, mas não entremos agora em tal seara. Devemos pensar antes no tratamento que São Tomás e outros filósofos medievais — estes sim, grandes intelectuais — deram, por exemplo, aos escolásticos islâmicos. Todos seguindo o ideal de São Basílio: “Analisai tudo e ficai com o que é bom”. Ora, só se pode fazê-lo se se entende que tal coisa é boa e, para isso, precisa-se de inteligência, coisa que infelizmente certas figuras não possuem nem um pouco.
No livro do Pe. Montreff, amplamente divulgado em setores tradicionalistas católicos, um de seus textos se intitula “A influência muçulmana em René Guénon” (obs.: René Guénon é um muçulmano). É como se eu chegasse para um anticristão com um texto intitulado “As influências católicas em São Tomás de Aquino” e esperasse que aquilo lhe causasse tanta repulsa que o desprezo ao pensamento de São Tomás lhe fosse tomado de imediato. Só queremos deixar claro que podemos, enquanto católicos — tal como o fez São Tomás —, aproveitar as doutrinas de autores muçulmanos. O risco de comprometer a nossa fé é zero.
Mas, talvez contente com a sua publicação, pois fez muitos olavistas ficarem chateados (o livro tem isso como único objetivo) e um tanto quanto sem respostas ou em completa inépcia, dado que alguns deles mesmos são tradicionalistas (coisa que o Olavo incentivou, de certa forma, muito erradamente, é claro), ele não imaginou que tais constatações passariam pelo filtro de um estudioso tanto do perenialismo quanto da metafísica hindu, então it’s over! Claro, quanto à afetação dos olavistas, isso não nos interessa, até porque a quantidade de mentiras e disparates levantados contra Schuon e Guénon por parte de Olavo é muito grande e revela até uma atitude diabólica contra figuras de tão bom caráter, reta intenção e que tanto lhe auxiliaram.
Para se entender a metafísica perenialista, é indispensável que se entenda a metafísica desenvolvida pelo o Advaita Vedanta de Shankaracharya. Sem um bom preparo em seus princípios, qualquer tentativa de entender minimamente essa corrente se desfaz. São como degraus para alcançar o topo da escada. Então, lendo, por exemplo, Introdução Geral ao Estudo das Doutrinas Hindus (o primeiro livro publicado por Guénon), o nosso crítico deveria ter se preocupado em, pelo menos, estudar essas doutrinas com profundidade antes de ter se aventurado a desmembrar toda a escola que as toma como ponto de referência. Uma outra coisa curiosa é que o nosso rapaz supererudito e capaz tem todas as seções com títulos muito parecidos com as obras de Montreff (René Guénon Julgado pela Tradição) e Jean Vaquié — com especial atenção para este último, que tem em seu L’Imposture Guénonienne uma análise do que ele — salvo engano — chama de brahmanismo (ou doutrinas hindus).
O mais impressionante é que, mesmo diante dessa necessidade metodológica, o nosso gênio não teve a impressionante ideia de estudar detidamente as doutrinas hindus. Ele afirma que o Advaita de Shankara é como que a única forma plena de hinduísmo, dado que fala algo como “do qual todo hinduísmo bebe”. Ainda que se argumente que essa é a tese de Guénon — como alguns críticos o fazem —, respondemos simplesmente com: isto é falso. Guénon diz, no livro já mencionado, que a perspectiva Visishtadvaita é válida; logo, não há somente Advaita. Esse é um dos maiores disparates existentes. Existe um outro que é gravíssimo também, a saber: o Advaita de Shankara é panenteísta. Sabemos que os alunos do Nougué não compreendem muito bem categorias básicas ou aquilo que já foi demonstrado por mim: eles seguem tudo o que o Nougué fala como chave de interpretação das coisas e acabam, por exemplo, dizendo que a causalidade vertical de Smith não é atuante, pois o Nougué declarou, certa vez, que Wolfgang Smith (e Lavelle) eram ambos heréticos por não aceitarem a atuação de Deus como sustentador (coisa nunca dita por Smith).
E daí que não podemos ignorar isso, porque toda a questão gira precisamente em torno da incapacidade de distinguir níveis de realidade. Quando se fala da unidade transcendental das religiões, fala-se necessariamente de uma hierarquia ontológica, de graus distintos do real e de perspectivas que não se situam todas no mesmo plano. Sem essa distinção, todas as suas formulações parecem contraditórias e, com ela, percebe-se que proposições aparentemente incompatíveis podem ser verdadeiras quando referidas a ordens diferentes da realidade.
O Advaita de Śaṅkara exige exatamente o mesmo cuidado interpretativo. Brahman não é apresentado como um ente entre outros entes, nem como uma substância suprema coexistindo com o universo em uma relação de continente e conteúdo. Brahman é o Absoluto, aquilo que transcende toda determinação, toda composição, toda relação e toda multiplicidade. O mundo da manifestação pertence a uma ordem contingente e condicionada, dependente do Princípio, mas não constitutiva dele. É justamente por isso que a classificação do Advaita como panenteísmo revela uma incompreensão daquilo que a escola pretende afirmar. O panenteísmo pressupõe que todas as coisas estejam em Deus e que Deus seja mais do que todas as coisas, preservando-se, porém, uma relação real entre o todo divino e as partes que nele estão contidas. Há Deus e há o mundo, ainda que o mundo exista em Deus. Há distinção, ainda que acompanhada de imanência. Em Śaṅkara, porém, o problema é colocado em termos completamente diferentes. O Absoluto não é um todo composto por partes nem um recipiente metafísico que contém o universo. Brahman não possui partes, acidentes, determinações ou relações constitutivas pelas quais o mundo possa ser integrado a Ele como um conteúdo é integrado ao seu continente. A multiplicidade pertence ao domínio da manifestação e da contingência; o Absoluto permanece não dual.
Por isso, chamar o Advaita de panenteísta equivale a introduzir na doutrina uma distinção que ela procura ultrapassar e as consequências dessa classificação equivocada são devastadoras para a própria crítica ao perenialismo. Afinal, se o Advaita fosse realmente panenteísta, os perenialistas estariam tomando como fundamento metafísico uma concepção na qual Deus e mundo permanecem correlativos, ligados por uma relação ontológica interna. Mas é precisamente isso que eles não fazem. Guénon, Schuon e os demais autores da escola recorrem ao Advaita justamente porque encontram nele uma formulação do Absoluto que transcende toda dualidade entre sujeito e objeto, criador e criatura, continente e conteúdo, sem com isso reduzir o relativo ao Absoluto nem transformar o Absoluto em soma do relativo. Se o Advaita fosse aquilo que o nosso gênio imagina que é (afinal, essa é a conclusão das suas aberrantes afirmações), então a metafísica perenialista perderia total sentido.
Se o Advaita de Śaṅkara é panenteísta, então o princípio metafísico do qual os perenialistas supostamente bebem é panenteísta. Se o princípio do qual os perenialistas bebem é panenteísta, então a unidade transcendental das religiões deve igualmente repousar sobre uma metafísica panenteísta. Se a unidade transcendental das religiões repousa sobre uma metafísica panenteísta, então ela deixa de possuir o caráter supraformal e principial que os próprios perenialistas lhe atribuem, tornando-se apenas mais uma formulação teológica particular entre outras. Se ela se torna apenas uma formulação teológica particular, deixa de poder fundamentar uma unidade transcendental das religiões propriamente dita. Logo, se o Advaita é panenteísta, a unidade transcendental das religiões torna-se impossível. Mas, se a unidade transcendental das religiões não é panenteísta, então o perenialismo não pode retirar do Advaita panenteísta os seus princípios metafísicos fundamentais. E, se não pode retirá-los, rompe-se a própria relação de dependência intelectual e metafísica que o crítico procura estabelecer entre ambos. Assim, ou o Advaita não é panenteísta, ou a unidade transcendental das religiões é impossível; e, se esta não é impossível, então a classificação do Advaita como panenteísta deve estar errada, pois, do contrário, o próprio vínculo que ele afirma existir entre Advaita e perenialismo se desfaz. E essa conclusão é óbvia para qualquer um que possua o pleno entendimento de ambas as matérias.





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