Recentemente nos deparamos com um artigo de nosso colega Deyvid Antônio, onde ele se propunha a refutar uma ideia que considerávamos evidente: a impossibilidade da reencarnação. Nesse texto, portanto, temos como objetivo evidenciar os erros cometidos por Deyvid em seu artigo, principalmente acerca dos pressupostos metafísicos que levaram Guénon a negar a ideia de um retorno do Ātman ao estado humano.
Consideramos prudente começar por um erro que, por menor que pareça, afetará o texto de nosso colega por completo: a ausência da argumentação do autor criticado. Deyvid inicia seu texto citando a conclusão de Guénon acerca da reencarnação1 e afirmando logo em seguida que, com o que está posto naquela citação, Guénon pretendia provar a impossibilidade de um retorno do ser ao estado corpóreo. Acontece que Guénon não pretendia provar coisa alguma através da conclusão, pelo simples poder de sua palavra, mas através da argumentação anterior em relação a citação em questão, mas que foi omitida e reescrita por Deyvid, de modo a depender completamente de uma leitura equivocada.
Deyvid afirma, ainda no primeiro parágrafo, que Guénon confundea impossibilidade de repetição no domínio do Ser com a própria manifestação. Ora, isso não poderia estar mais errado, a exposição de Guénon não poderia ser mais simples: sendo o estado humano uma possibilidade de manifestação do Si Mesmo e, sendo o Si Mesmo, em última instância, o próprio Absoluto, qualquer repetição de um estado (sendo ele integralmente realizado ou não), implica numa limitação, coisa que de modo algum pode estar contida no seio da Possibilidade Universal. Ele diz:
Não podemos pensar em expor aqui, com todos os desenvolvimentos que ela comporta, a teoria metafísica dos estados múltiplos do ser; temos a intenção de lhe consagrar, quando pudermos, um ou vários estudos especiais. Mas podemos ao menos indicar o fundamento dessa teoria, que é ao mesmo tempo o princípio da demonstração de que se trata aqui, e que é o seguinte: a Possibilidade universal e total é necessariamente infinita e não pode ser concebida de outro modo, pois, abrangendo tudo e não deixando nada fora de si, ela não pode ser limitada por nada absolutamente; uma limitação da Possibilidade universal, devendo ser-lhe exterior, é propriamente e literalmente uma impossibilidade, isto é, um puro nada. Ora, supor uma repetição no seio da Possibilidade universal, como se faz ao admitir que haja duas possibilidades particulares idênticas, é supor-lhe uma limitação, pois o infinito exclui toda repetição: só no interior de um conjunto finito se pode retornar duas vezes a um mesmo elemento, e ainda assim esse elemento só seria rigorosamente o mesmo sob a condição de que esse conjunto formasse um sistema fechado, condição que jamais se realiza efetivamente. Desde que o Universo é verdadeiramente um todo, ou antes o Todo absoluto, não pode haver em parte alguma nenhum ciclo fechado: duas possibilidades idênticas não seriam senão uma única e mesma possibilidade; para que sejam verdadeiramente duas, é preciso que difiram ao menos por uma condição, e então não são idênticas. Nada pode jamais retornar ao mesmo ponto, e isso mesmo em um conjunto que é apenas indefinido (e não mais infinito), como o mundo corpóreo: enquanto se traça um círculo, efetua-se um deslocamento, e assim o círculo só se fecha de modo inteiramente ilusório. Isto não passa de uma simples analogia, mas pode servir para ajudar a compreender que, “a fortiori”, na existência universal, o retorno a um mesmo estado é uma impossibilidade: na Possibilidade total, essas possibilidades particulares que são os estados de existência condicionados estão necessariamente em multiplicidade indefinida; negar isso é ainda querer limitar a Possibilidade; é preciso, pois, admiti-lo, sob pena de contradição, e isso basta para que nenhum ser possa passar duas vezes pelo mesmo estado.
O erro do nosso colega acaba por ser aquele que ele mesmo acusa Guénon de cometer, ele confunde a noção de manifestação com o princípio imutável e intocado dela, desse modo concluindo que, se pode haver repetição na manifestação, o princípio que dá origem a ela também deve estar envolvido nisso numa possibilidade de repetição de um mesmo estado do ser que, para Guénon, é sempre de ordem indefinida.
Ao usar o caráter cíclico do mundo manifestado como argumento, Deyvid distorce a estrutura do argumento de Guénon. A impossibilidade de repetição se refere aos estados na medida em que o Si-Mesmo (enquanto postula que Ele pode retornar a um mesmo estado) se apresenta como um em muitos (que são, na verdade, o mesmo no Não-Ser, pois Nele não pode haver distinção), mas carregando em si o caráter do todo. Desse modo, a repetição dos ciclos cósmicos, por exemplo, se refere unicamente a um estado manifestado, enquanto que a reencarnação se refere propriamente ao Si-Mesmo ou, em outras palavras, ao Absoluto.
No parágrafo seguinte, encontramos algo especialmente curioso. Há uma confusão entre a repetição de um estado e as características específicas da manifestação nesse mesmo estado. Desse modo, pouco importa a nós se, numa estrutura reencarnacionista, a alma assume um corpo radicalmente diferente do anterior ou um corpo idêntico, isso em nada afeta a tese do sheikh francês quanto a impossibilidade de repetição do ser em um mesmo estado. O próprio crítico já expõe a solução do problema: continuidade do princípio. Ora, se um ser em questão é o princípio daquilo q está manifestado neste ou naquele estado e ele retorna a esse mesmo estado, não importa o quão diferente seja esse corpo novo, houve repetição. Todo esse parágrafo parece se sustentar sobre uma interpretação errada daquilo que Guénon quis dizer com impossibilidade da repetição no plano do ser.
Ainda que fosse afirmado, como Deyvid faz, que o individuo é distinto do Si-Mesmo, de duas uma: aquilo que passado do sujeito A ao B é exclusivamente as formações psíquicas residuais do eu e que o Si-Mesmo, então, transmigra para um estado diferente do ser, não havendo, portanto, reencarnação, mas sim algo próximo do renascimento budista; ou que o indivíduo é passado junto do Si-Mesmo a outro corpo e, nesse caso, empacamos no problema inicial.
Também podemos apontar que, na afirmação de que Guénon confundiu o Ātman e o jīva, há uma incompreensão em relação ao modo com o qual Guénon interpreta o Ātman dentro de sua metafísica. Para Guénon, o ser, Ātman, é propriamente o princípio intocado e imóvel da manifestação que encontra sua identificação com o Absoluto no Não-Ser, onde não há distinções. Desse modo, o jīva só pode ser na medida em que participa de um ser. Esse ser, um observador, ainda é o o ‘ser da sujeito X’, enquanto se manifesta no sujeito X, identificando-se com o Ser total, apenas, na não distinção da não manifestação. O ser, portanto, ao se manifestar no estado humano, não retorna a ele em outros corpos como quem troca de roupa, como quer nos convencer Deyvid Antônio.
A seguir, num segundo tópico em seu texto, Deyvid afirma que Guénon confunde identidade e continuidade. O argumento consiste em apontar que o francês não reconhece a possibilidade de uma identidade que reconhece transformação. O problema desse argumento é que ele não corresponde de nenhum modo ao que Guénon afirmou em suas obras. Caso fosse verdade que Guénon não reconhece transformação, ao menos aparente, na conservação da identidade, sequer seria possível a ele falar em estados múltiplos do ser ou definir o Si-Mesmo como ele define. Veja que o mestre francês é muito claro em reconhecer modificações do Si-Mesmo, que é o único elemento constituinte do ente que pode ser realmente chamado de identidade do identidade em sentido pleno, sem negar a relação dessas manifestações com seu princípio:
“O “Si-Mesmo” é o princípio transcendente e permanente do qual o ente manifesto – o ente humano, por exemplo – não passa de uma modificação transitória e contingente, modificação que, além disso, não pode afetar de maneira alguma o princípio […].”
O que Guénon faz, para preservar o rigor próprio da metafísica que constrói, é negar qualquer possibilidade de mudança no princípio de manifestação dos variados estados, reconhecendo algo de imutável que os atravessa como um eixo. Ademais, o Sufi do Ocidente faz questão de pontuar que cada estado, considerado em si mesmo, é constituído por uma multidão indefinida de modificações secundárias2. Não obstante, os estados ainda apresentam uma continuidade entre si, reconhecendo que, mesmo quando entendemos essa estrutura no plano dos estados múltiplos, ainda há uma continuidade imediata de um estado em relação ao outro.
O reconhecimento das modificações secundárias dentro de um mesmo estado deveria ser o suficiente para demonstrar que Guénon não nega qualquer continuidade. Ademais, nos parece bastante arbitrária a conclusão de que, se Guénon nega o retorno do Si-Mesmo a um mesmo estado, ele deve admitir que o homem de 40 anos é ontologicamente distinto dele mesmo aos 5. A objeção do nosso colega, censurar a reencarnação e aceitar modificações internas na vida de um sujeito é contraditório, desconsidera que Guénon entende o estado humano como o espaço de uma vida, entendendo que a cessação dele se dá na morte, pois é nela que o ser se abre a possibilidade de encontrar outro modo de manifestação, como é aceito por todas as doutrinas tradicionais. A arbitrariedade, portanto, reside na tentativa de derivar, das mudanças acidentais da vida de um sujeito, a continuidade de uma mesma ‘vida’ em muitas vidas, entendendo esse conjunto de retornos como um único estado.
Adiante, é nos dado inúmeros exemplos de modificações onde há um reconhecimento de uma unidade sem, no entanto, haver identidade absoluta. Acontece que isso é mais que evidente, a identidade absoluta implicaria em ausência total de distinção, coisa que Guénon jamais afirmou. Guénon, apesar de ter uma saúde frágil, não era cego, era capaz de perceber a distinção entre dois pontos de um rio, de modo que jamais afirmaria uma identidade absoluta entre eles.
Sobre a questão budista, a situação fica ainda mais favorável ao sheikh: não há retorno de um eu a um mesmo estado, mas a passagens de marcas psíquicas que, por si só, não correspondem a um eu que reencarna. Mais a frente, no mesmo parágrafo, Deyvid sugere uma pergunta a Guénon, pergunta essa que faremos questão de responder. Ele diz: “quando afirmas que “um mesmo ser não pode ter duas existências no mundo corporal”, o que entendes exatamente por “mesmo ser”? Se falas do Ātman, concordamos contigo, pois o Ātman jamais nasce nem morre. Se falas do ego empírico, então já dentro desta vida ele muda incessantemente. Se falas do jīva condicionado, então justamente sua natureza é atravessar estados múltiplos segundo o karma. Assim, em qualquer hipótese, tua formulação permanece ambígua.” A isso, responderemos que nos referimos ao Ātman, no entanto, é necessário esclarecer que isso não implica numa morte e renascimento do Ātman em outro estado, mas sim na passagem de um estado de manifestação a outro, de modo que a possibilidade de se manifestar nesse estado se torna uma repetição na multidão indefinida de estados manifestáveis.
Quanto as demais objeções presentes nesse tópico e no seguinte, cremos já estarem suficientemente respondidas, em especial aquelas que apelam a ideia de repetição no mundo corpóreo considerado em si mesmo. Nos vale, no entanto, alertar ao uso abusivo da palavra ‘infinito’, usada por Deyvid para se referir ao movimento indefinido da manifestação. Māyā não gira infinitamente, caso contrário, o giro de Māyā limitaria Brahman, pois dois infinitos limitam-se mutuamente, de modo que só pode haver um Infinito. Seria prudente, no entanto, dizer que Māyā gira indefinidamente.
Mais tarde, tentando evocar uma necessidade moral para a reencarnação, Deyvid levanta as desigualdades existentes entre os homens, como a desigualdade entre o abastado e o miserável de berço, o cego e o saudável, o sábio e o troglodita, etc. Ele afirma haverem duas hipóteses, além da reencarnacionista, ou há um puro acaso, ou há uma distribuição arbitrária, ambas as possibilidades não seriam capazes de satisfazer a metafísica tradicional. A isso responderemos que Guénon é, acima de tudo, um akbariano e, por isso, afirma uma imutabilidade principial (thubūt) do ente manifesto no Reino das possibilidades e que é manifesta por meio de sua existência (wujūd). Desse modo, nos parece justo evocar uma citação do selo da santidade muhammadiana em respeito as determinações do ente manifesto:
“Caso se afirme que a existência pertence propriamente ao Real e não a ti, mesmo assim a determinação pertencerá indubitavelmente a ti no ser do Real; caso se afirme que tu és existente, a determinação será tua sem dúvida, embora seja o Real o Determinador. Tudo que lhe cabe é emanar sobre ti a existência; a determinação será tua e incidirá sobre ti.”
Desse modo, o Determinador é o Real, mesmo que a determinação seja minha na fixidez eterna e indistinta no Intelecto Divino. Desse modo, se há um rico ou um pobre, não é por um acaso, mas é por determinação própria do rico ou do pobre. Não foi o Real que fez isso a eles, mas eles mesmos, pois é assim que se encontravam como Entidade Fixa. Ademais, a tentativa de provar a reencarnação pela desigualdade se mostra um apelo pouco sofisticado a um sentimentalismo característico dos ateus e que nunca esteve presente desse modo na tradição hindu. Essa postura contrasta com o que será dito por Deyvid adiante: o karma não é um agente de caráter moral, mas um princípio de inteligibilidade do cosmos. Claro que isso não é nada estranho a Guénon, pelo contrário, isso é bastante familiar a ele, em seu Introdução Geral ao Estudo das Doutrinas Hindus, ele diz:
“[…] karma, tomada então numa acepção especial, quase técnica, sendo seu sentido geral o de ‘ação’. Para aqueles que querem a todo custo ver uma religião na tradição hindu, restaria então aquilo que acreditam ser a moral, e seria esta que seria chamada mais precisamente de dharma; daí, conforme os casos, interpretações diversas e mais ou menos secundárias como as de ‘virtude’, ‘justiça’, ‘mérito’, ‘dever’, todas noções efetivamente exclusivamente morais, mas que, justamente por isso, não exprimem em grau algum a concepção de que se trata. O ponto de vista moral, sem o qual essas noções ficam desprovidas de sentido, não existe na Índia; já insistimos suficientemente nisso, e até indicamos que o Budismo, que sozinho poderia parecer apto a introduzi-lo, não havia até então entrado na via do sentimentalismo.”
Deyvid então oferece uma explicação acerca do funcionamento do Karma (acerca da qual nada diremos contra), afirmando que essa estrutura não poderia se manifestar em proporção “adequada” no espaço de uma vida. No entanto, Guénon nunca limitou as consequências kármicas ao espaço de uma vida, tampouco está comprometido com o que nosso colega considera adequado. Sabendo do caráter amoral do Karma, não devemos supor que os efeitos de uma ação se restringem ao sujeito que iniciou uma determinada ação, mas que se estendem indefinidamente, de modo que poderiam se manifestar tempos depois da morte daquele que iniciou a ação em questão.
Novamente nos deparamos com o argumento da desigualdade, já respondido acima, de modo que nos furtamos de estender desnecessariamente esse ponto. Do mesmo modo, repete-se a confusão acerca daquilo que Guénon quis dizer com repetição e que também explicitamos anteriormente. Se nos vale fazer mais algum comentário, é que Deyvid parece cada vez menos confiante na teologia linearista típicas daquilo que podemos chamar propriamente de religiões, o que é preocupante, pois pode dissolver a caridade que evidencia a unidade esotérica, especialmente para um católico.
Deixamos claro, por fim, que pouco nos importa o caráter da reencarnação enquanto constituinte da tradição hindu. O que nos dispusemos a fazer, e fizemos, é defender a metafísica pura, para além de degenerações ou adaptações. Esperamos que tenha ficado claro as razões pelas quais Guénon não incorre em uma confusão entre a aparente repetição dentro dos limites próprios de um estado manifestado e a repetição da manifestação do Si-Mesmo em um determinado estado do ser.
“O homem nasce uma só vez. Eu já nasci muitas vezes.“
Rumi
- “Somos, pois conduzidos assim a mostrar que a reencarnação é uma impossibilidade pura e simples; por isso é mister entender que um mesmo ser não pode ter duas existências no mundo corporal, considerando este mundo em toda sua extensão: pouco importa que seja sobre a Terra ou sobre outros astros quaisquer; importa pouco também que seja em ser humano ou, segundo as falsas concepções da metempsicosis, sob qualquer outra forma, animal, vegetal ou inclusive mineral” ↩︎
- “Dessa forma, vemos claramente que cada modalidade é finita, limitada, pois é representada por uma circunferência, que é uma curva fechada, ou pelo menos uma linha cujas extremidades nos são conhecidas e, por assim dizer, dadas; mas, por outro lado, essa circunferência compreende uma multidão indefinida de pontos, representando a indefinidade das modificações secundárias que a modalidade considerada envolve, seja ela qual for.” ↩︎





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