O Afeganistão, como qualquer outro país oriental, sofre constantemente com a mitificação e os estereótipos por parte do público ocidental. No caso afegão, por ser um inimigo declarado do Ocidente e dos EUA, sofre ainda com as mentiras da máquina propagandística, seja pelo cinema, pela mídia e, mais recentemente, pelas redes sociais, através dos influenciadores. Não só o Afeganistão sofre com mentiras fabricadas, como também o Irã, a Coreia do Norte, a China e todos os países que compõem o dito “Eixo do Mal”, nas palavras de George Bush.
Iremos nos atentar, neste texto, à situação das mulheres no Afeganistão, assunto que sempre gera polêmica, postagens, campanhas e matérias na grande mídia ocidental. Irei me basear em vídeos que tiveram números expressivos de curtidas e compartilhamentos. Em particular, um compartilhado recentemente pelo portal independente “Mídia Ninja”.
A narrativa sobre as restrições sociais afegãs costuma ser normalmente a mesma: as mulheres eram livres até determinado período e, magicamente, o Talibã surge e retira todos os direitos e liberdades conquistados, fazendo com que as mulheres passem a usar burca, sair de casa acompanhadas de um homem e tenham seus casamentos arranjados, nunca podendo escolher livremente. Para sustentar essa narrativa, sempre existe uma foto das mulheres antes das restrições — aparentemente livres e outra depois, já usando a burca.
Antes de mais nada, a lógica civilizacional homogênea francesa, criada na Revolução do século XVIII, na qual a cultura nacional é mais ou menos homogênea e o povo é coeso em seus anseios, é uma lógica que nunca foi plenamente recebida no mundo islâmico, ainda marcado fortemente pela presença tribal. A população afegã é composta por diferentes grupos étnicos, linguísticos, religiosos e tribais. A própria relação entre Estado, religião, costumes locais e estruturas tribais sempre foi objeto de disputa. Provavelmente, se você perguntar a qualquer influenciador que comenta sobre o Afeganistão qual é a língua falada lá, ele vai responder que é o “afegão”, desconhecendo que uma parte do país fala o pashto e outra, o dari. Essa simples questão linguística já demonstra o quanto o conhecimento sobre o país é superficial.
É nesse ponto que conceitos como Pashtunwali (código tribal pashtun) tornam-se importantes para compreender determinadas regiões do país. A Pashtunwali não é simplesmente uma “lei do Talibã”, e nem pode explicar sozinha todas as restrições impostas às mulheres. Trata-se de um conjunto de normas e costumes anteriores ao surgimento do Talibã, que historicamente regulou questões relacionadas à honra, família, casamento e relações entre os sexos.
Na Pashtunwali, a honra dos homens está diretamente ligada à reputação das mulheres de sua família. Concretamente, o código tribal sempre incentivou as mulheres a permanecerem nas funções domésticas e a saírem acompanhadas de um homem da família. O uso da burca também não foi inventado pelo Talibã. Um retrato feito pelo estudioso James Atkinson, por volta de 1840, já mostrava uma mulher de Cabul usando o chadari, demonstrando que o traje existia na capital afegã muito antes do surgimento do movimento talibã.
O que aconteceu, de fato, foi que, durante o século XX, alguns líderes afegãos adotaram reformas modernizantes e ocidentalizantes, como ocorreu em grande parte do mundo islâmico nesse período. O rei Amanullah Khan iniciou um projeto de modernização e procurou reduzir normas tradicionais relativas às mulheres. A rainha Soraya Tarzi apareceu publicamente sem o véu, tornando-se um símbolo das reformas. Amanullah também incentivou a educação feminina e a participação das mulheres na vida pública.
Essas reformas encontraram forte resistência em setores tradicionais e tribais. Entretanto, é importante não simplificar essa resistência como sendo apenas uma reação às reformas femininas, durante essas reformas houve perda de autonomia tribal, e à redução dos privilégios de chefes tribais e religiosos.
As fotografias que os influenciadores usam para demonstrar o suposto “regresso” que o Afeganistão sofreu com a volta do Talibã são, em grande parte, fotografias desse período de reformas, geralmente tiradas na capital Cabul, que, como qualquer capital, é naturalmente mais cosmopolita e moderna. Essas imagens não representam, portanto, a realidade da maior parte do Afeganistão naquele período.
Durante a ocupação soviética, mais uma vez houve tentativas de modernização e transformação dos costumes. Acontece que essa modernização, agora carregada pelo contexto revolucionário e pelo ateísmo de Estado associado ao regime comunista, gerou forte reação entre os chefes tribais e religiosos afegãos, contribuindo para o crescimento da resistência islâmica e para a formação e fortalecimento dos mujahideen. Posteriormente, parte do ambiente político e militar dos mujahideen contribuiria para o surgimento do Talibã. Claro, não é tão simples assim: os combatentes tiveram apoio estadunidense através da Operação Cyclone, além do apoio paquistanês, mas o sentimento antissoviético e a reação contra determinados projetos de modernização cresceram substancialmente durante a guerra.
O Talibã, além dessa influência tribal, possui diversos elementos heterogêneos que o constituem, como a influência dos seminários Deobandi, a tradição jurídica Hanafi e os precedentes sociais já existentes no Afeganistão. Além disso, existem as inovações trazidas pelo próprio grupo. Portanto, o Talibã não inventou do nada determinadas práticas que já existiam no Afeganistão havia décadas ou séculos. O que fez foi instrumentalizar e, em diversos casos, institucionalizar certas práticas e normas sociais preexistentes, transformando-as em política de Estado. Isso ganha, obviamente, um viés muito mais radical com o grupo no poder. O elemento do ressentimento é fortíssimo, pelas diversas tentativas de ocupação que aconteceram no Afeganistão. Mas isso não muda o fato de que determinadas práticas que os influenciadores apresentam como invenções do Talibã possuem precedentes históricos no próprio Afeganistão.
Seu vizinho, o Irã, sofre das mesmas simplificações. É comum ver influenciadores anti-islâmicos usando fotografias do Irã das décadas de 1960 e 1970 e comparando-as com o Irã atual, ignorando que o processo de modernização e ocidentalização promovido pela monarquia, foi também um processo vindo a partir do estado. Em 1936, Reza Shah proibiu oficialmente o uso do véu e do chador em público, impondo a política através de medidas coercitivas. Mulheres que resistiam podiam ser impedidas de entrar em espaços públicos e sofrer intervenções policiais. Ou seja, também no Irã a história não pode ser resumida simplesmente em “antes havia liberdade e depois veio o Islã”. Houve, antes da Revolução de 1979, um Estado modernizador que também utilizou o poder estatal para transformar e proibir práticas tradicionais.
O ponto de maior falsificação por parte dos influenciadores, e talvez o ponto que mais gera likes e compartilhamentos, é a suposta tentativa de determinado candidato de fazer o mesmo no Brasil. O problema não é criticar o excesso de restrições que as mulheres sofrem no Afeganistão. Vale lembrar que a esmagadora maioria dos muçulmanos condena publicamente essas restrições; o problema reside em transformar a mulher afegã em uma narrativa conveniente.Sem entrar no mérito de as bancadas evangélicas almejarem ou não um governo de viés mais religioso, não existe nenhum precedente histórico equivalente para a instrumentalização de costumes e hábitos do século XIX no nosso país. Se quisermos falar de instrumentalização religiosa no Estado brasileiro, deveríamos utilizar algum equivalente histórico mais próximo, e não um caso tão radical e heterogêneo como o afegão.
Isso, mais uma vez, é uma narrativa de pânico moral: utiliza imagens e acontecimentos reais, mas retira deles o contexto histórico necessário para estabelecer uma comparação válida.





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