O Satanismo dos Ditos “Tradicionalistas”

Antes de toda e qualquer dissertação acerca dos grupos autoproclamados ‘tradicionais’, é necessário pontuar que o presente texto não é mais do que uma continuação do texto de 1936 “As falsificações da ideia de Tradição“.1 Nosso objetivo é, portanto, estender o trabalho de Guénon de modo a abranger seus alertas não só a grupos pseudo-iniciáticos e contra-iniciáticos, mas também a grupos que, com definições pouco rigorosas, se declaram paladinos da ‘tradição’, nome que dão a uma série de costumes e a um caráter religioso exclusivista que aparta até mesmo seus próprios irmãos de fé.

Como ponto de partida, parece-nos prudente definir o conceito chave para o desenrolar de nossa argumentação: Satanismo. Ao contrário do que a cultura popular faz crer, Satanismo não se trata somente de rituais macabros, assassinato de virgens, transfiguração de homens em animais (ao menos não de forma literal) e tampouco de jogos de cartinhas. Na verdade, satanismo se trata propriamente da inversão da ordem em qualquer aspecto que seja.2 Satanás é, portanto, a revolta contra a verdadeira ordem, o próprio espírito moderno que engole tudo aquilo que há de certo e justo em nosso tempo.

Sendo Satanás a inversão da ordem, ele se valerá de simulacros vazios de realidade supra-sutil para inverter a ordem posta, dando à alma a supremacia em relação ao Espírito.3 Essa inversão não se dá apenas na hierarquia das esferas da realidade, mais ou menos relativas, que o homem pode experienciar (mesmo que, em última instância, toda inversão satânica leve a esta), como dito anteriormente, essa inversão se dá em todos os aspectos da vida humana. Mesmo quando tratamos do esvaziamento estéril, como a pseudo-iniciação, há ali a ação do maligno, os agentes da contra-iniciação que buscam substituir o motor invisível (iniciação) por um simulacro carente de realidade supra-humana, ou ainda quando tornamos os homens meros autômatos, ou quando tornamos a arte uma imitação da criação. Ora, o que mais pode ser uma imitação que não uma versão imperfeita e degenerada daquilo que se está imitando? A atividade maligna, portanto, se encontra na própria perversão da ordem, como um largo passo em direção à completa inversão.

As organizações de caráter satanista trabalham com a mentira e a enganação, ou não foi dito que o Diabo é o rei da mentira? Novamente recorremos à inversão: veja, a mentira não é mais do que a perversão da Verdade em algum ou em todos seus aspectos. Esses movimentos tomam para si, conscientemente ou não, o rumo do aproveitamento do medo e da preguiça intelectual. É verdade que vultus vult decipit4, todavia não quer saber que de fato está sendo iludido, deseja profundamente ser enganado muito bem e recorrerá a qualquer forma que seduza seus anseios de uma falsidade que soa como verdade, um modernismo com aparência de tradição, um aceleracionismo5 vestido de conservadorismo; i.e6, um lobo em pele de cordeiro.

Sendo a contradição e a degeneração duas marcas do mundo moderno, é no mínimo tragicômico que um dos grupos que melhor trabalha por ele se diga contrário a ambas as marcas supra citadas. Seus seguidores, farisaicamente crentes de suas virtudes (que não passam de vícios), são como Édipo que se nega a acreditar que ele mesmo é o assassino de Laio e culpam seus próprios Creontes por conspirarem contra eles. Aqui, entretanto, esses Creontes não são injustiçados, ao menos não sempre, em verdade, são tão parecidos com Édipo quanto aqueles que cumprem este papel.

O aspecto mais disforme do pseudo-tradicionalismo é sua aversão à paz, são incapazes de viver sem gerar cismas atrás de cismas, buscando ter mais um grupo a quem odiar e, a cada dia que passa, o número de grupos aumenta. De início, odeiam apenas as demais religiões, em seguida, criam um cisma dentro de sua própria estrutura, pois veem que de alguma forma ‘houve uma ruptura’ em relação a como era antes,7 em seguida, encontram um novo motivo para cismar do próprio cisma e assim sucessivamente até que não haja mais unidade alguma. As ovelhas desses maus pastores são conduzidas a colocarem seus sentimentos saudosistas acima daquilo que há de mais sagrado, reduzem toda a esfera supra-humana a suas próprias tendências orgulhosas, esterilizando sua fé e dando cada vez mais força aos agentes contra-iniciáticos.

Não preciso pontuar que é esse espírito pseudo-tradicionalista que leva ao ódio contra o esoterismo; é sobre essa tendência que deve recair a responsabilidade pelo assassinato de sufis por parte de islâmicos fundamentalistas e a chacina que culminou no fim da Ordem do Templo. Há hoje um perceptível crescimento desse modo de pensar que se expressa no ódio pelo ecumenismo, que confundem com apostásia e sincretismo. Com efeito, eles gritam aos quatro ventos todo tipo de ofensa contra as autoridades religiosas que optam por um diálogo inter-religioso, negam a jurisdição de suas próprias religiões, quando não se envolvem em crimes e imoralidades de todos os tipos.

Dentro do catolicismo ainda há uma janela de argumentação baseando-se na perda dos símbolos e na superestimação do sentimentalismo que de fato é verdade. Entretanto, é também verdade que tais grupos cismáticos não restauraram os símbolos ou restauraram uma postura esotérica dentro da fé; pelo contrário, substituíram um sentimentalismo por outro, de um lado uma preferência pela piedade e pelo misticismo e do outro pelo saudosismo vazio e ausente de um caráter verdadeiramente intelectual. Devemos deixar claro que, por mais afetado pelo Kali Yuga que ele seja, o catolicismo ainda está ligado à Tradição Primordial8, mesmo que tenha se tornado puramente exotérico,9 enquanto que os ditos ‘tradicionais’ não.

Por fim, trazemos aqui a mesma conclusão do mestre Guénon em seu texto: dizemos, assim como ele, que é inegável que qualquer simulação deve carregar consigo pelo menos alguma característica daquele que se está simulando. Se há alguma verdade sendo proferida por qualquer agente do caos, deve-se considerar que essa verdade não é diferente de um ótimo disfarce do qual o Opositor se vale para corromper o Mundo.

“Nada pode ser mais perigoso do que negar sua existência, que é tão real, embora não mais, quanto a nossa; não ousamos negar Satanás até que tenhamos negado a nós mesmos, como todos os que desejam seguir Aquele que não disse nem fez nada ‘por si mesmo’.”
— Ananda K. Coomaraswamy

“Não basta crer em Deus; é preciso acreditar também no Diabo.”
— Frithjof Schuon

  1. Guénon, René. Les Contrefaçons de l’idée traditionnelle, Études Traditionnelles, nos. 203-204, nov./dez. 1936 ↩︎
  2. Ibid. ↩︎
  3. Coomaraswamy, Ananda. Who is Satan and Where is Hell. ↩︎
  4. O povo deseja ser enganado. ↩︎
  5. Aceleracionismo aqui deve ser relacionado com o espírito dinâmico do Kali Yuga; espírito esse que coloca a ação em detrimento da contemplação. A Roda do Nosso Nascimento gira cada vez mais rápido, trazendo consigo uma parada violenta que levará à dissolução do nosso tempo. ↩︎
  6. Isto é. ↩︎
  7. Vale assinalar que as supostas rupturas podem ser de ordem puramente acidental, não estando ligadas a questões teológicas e metafísicas. ↩︎
  8. Aos leitores desabituados com a terminologia perene, achamos de bom-tom explicitar o que queremos dizer com Tradição Primordial: a Tradição Primordial é propriamente o Princípio supra-humano e atemporal de onde as diversas formas religiosas (tomando essa palavra num sentido amplo) se manifestam. ↩︎
  9. Isso não deve ser tido como nada além de uma possibilidade baseada no pior cenário possível. Ainda assim, há como assumir a tese schuoniana, que aponta a uma integração do exoterismo e do esoterismo no seio do cristianismo, sem alterar a análise aqui realizada. ↩︎
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