O Coração e a Caverna — René Guénon

Fonte: Studies in Comparative Religion, Vol. 5, No.1. (Winter, 1971) © World Wisdom, Inc.

Aestreita relação1 entre os simbolismos da caverna e do coração explica a função da caverna, a partir do ponto de vista iniciático, como representando um centro espiritual. O coração é, de fato, essencialmente um símbolo do centro, seja o centro de um ser ou, analogamente, o centro do mundo, isto é, seja do ponto de vista microcósmico ou macrocósmico; o mesmo significado vem naturalmente a ser atribuído também à caverna, em virtude dessa relação com o coração; mas essa conexão simbólica clama por uma explicação mais complexa, e é, precisamente, o tema deste artigo.

A “caverna do coração” é uma expressão tradicional bem conhecida: a palavra guhā, em sânscrito, geralmente denota caverna, mas também é aplicada à cavidade interior do coração e, por extensão, ao próprio coração; esta “caverna do coração” é o centro vital no qual reside não apenas jīvātmā, mas também o Atmā incondicionado que é, na realidade, idêntico ao próprio Brahma, como mostramos noutro lugar2. Esta palavra guhā provém da raiz guh, que significa “cobrir” ou “esconder”, assim como a raiz similar, gup, de onde vem gupta, que é aplicado a tudo o que é secreto, a tudo que não é exteriormente manifesto: isso é o equivalente do grego Kruptos, de onde vem a palavra “cripta” que é um sinônimo de “caverna”. Essas ideias estão relacionadas ao centro na medida em quem este é considerado como o ponto mais interior e, portanto, o mais oculto; estas mesmas ideias referem-se também ao segredo iniciático, seja em si ou como simbolizado pela disposição do lugar onde iniciações são dadas, um lugar que é oculto ou “coberto”, ou seja, inacessível ao profano, seja esse lugar guardado por uma estrutura de “labirinto” ou em alguma outra forma (por exemplo, os “templos sem portas” da iniciação do Extremo Oriente), e sempre considerado como uma imagem do centro.

Por outro lado, deve-se notar que esse caráter oculto ou secreto, que caracteriza os centros espirituais ou sua representação figurativa, implica que a verdade tradicional em si mesma já não é acessível largamente em toda sua plenitude a todos os homens igualmente, o que é sinal de um período de “obscurecimento”, ao menos em um sentido relativo; isso nos permite “situar” tal simbolismo no curso do desenvolvimento do ciclo; mas esse é um ponto ao qual teremos de voltar com mais detalhes ao estudarmos as relações entre a montanha e a caverna, na medida em que ambas são tomadas como símbolos do centro. Por ora, limitamo-nos a assinalar, a esse respeito, que a figura do coração é um triângulo com o vértice voltado para baixo (sendo o “triângulo do coração” mais uma expressão tradicional); e essa mesma figura representa também a caverna, ao passo que a da montanha, ou da pirâmide que lhe é equivalente, é, ao contrário, um triângulo com o vértice voltado para cima. Isso mostra que temos aqui uma relação inversa e, também, num certo sentido, complementar. Acrescentemos, com relação a essa representação do coração e da caverna pelo triângulo invertido, que este é um daqueles casos em que claramente não se pode associar a esse símbolo qualquer ideia de “magia negra”, apesar das afirmações, infelizmente muito frequentes, daqueles cuja compreensão do simbolismo é totalmente insuficiente.

Tendo dito isso, permita-nos retornar ao que está, de acordo com a Tradição Hindu, escondido na “caverna do coração”: trata-se do princípio do ser que, nesse estado de “envolvimento” e em relação à manifestação, é comparado com o que é menor (a palavra dahara, que denota a cavidade onde isso reside, refere-se também a esta mesma ideia de pequenez), sendo que é na realidade o que é maior, assim como o ponto é espacialmente infinitesimal e até mesmo nulo, embora seja o princípio pelo qual todo espaço é produzido, ou novamente, como o número um aparece como o menor dos números, embora contenha todos os demais de forma principial e produza toda a sua série indefinida. Temos aqui, portanto, a expressão de uma relação inversa, na medida em que o princípio é considerado a partir de dois diferentes pontos de vista; desses, o ponto de vista da extrema pequenez concerne ao estado oculto e, por assim dizer, “invisível” que é, para o ser em questão, ainda não mais que uma “virtualidade”, mas que é o ponto de partida desse desenvolvimento espiritual; eis então o “início” (initium) desse desenvolvimento, que é diretamente relacionado à iniciação no sentido etimológico do termo; e é precisamente a partir desse ponto de vista que a caverna pode ser considerada como o lugar do “segundo nascimento”. Nesse contexto, encontramos textos como o seguinte: “Saiba que este Agni, que é a fundação do eterno (principial) mundo, e através do qual este mundo pode ser alcançado, é oculto na caverna (do coração)”3 que se refere, na ordem microcósmica, ao “segundo nascimento”, e também ao que é “macrocosmicamente” análogo a isso, o nascimento do Avatara.

Já foi mencionado que o que reside no coração é tanto o Jīvātmā, do ponto de vista da manifestação individual, quanto o Atmā incondicionado (Paramātmā), do ponto de vista principial; a distinção entre o individual e o principial não é mais do que uma ilusão; ela só existe em relação à manifestação, mas são uma na realidade absoluta. Estes são “os dois que adentraram a caverna”, e que, ao mesmo tempo, são também descritos como “habitando no mais alto cume”, então que os dois simbolismos — da montanha e da caverna — estão aqui unidos4. O texto acrescenta que “os que conhecem Brahma o chamam de escuridão e de luz”; este é mais particularmente relacionado ao simbolismo de Nara-nārāyana, do qual nós tratamos ao comentar o Atmā-Gitā5, citando esse mesmo texto: Nara, o ser humano ou o mortal que é jīvātmā, é identificado com Arjuna, e Nārāyana, o divino ou o imortal, que é Paramātmā, é identificado com Kṛṣna; ora, de acordo com o significado literal, o nome Kṛṣna denota escuridão da cor e o nome Arjuna denota claridade da cor, ou noite e dia respectivamente, na medida em que são consideradas como representando o imanifesto e o manifesto6. Um simbolismo exatamente análogo, neste respeito, é o dos Dióscuros (Dioscúroi) na sua correspondência com os dois hemisférios, um escuro e outro claro, como indicamos ao tratar do significado da “dupla espiral”7. Por outro lado, esses “dois”, que são jivātmā Paramātmā, são também os “dois pássaros” mencionados em outros textos como “habitantes de uma mesma árvore” (assim como Arjuna e Krṣṇa correm na mesma biga), e quem são ditos ser “inseparavelmente unidos” porque, na realidade, são um só, sendo a distinção entre eles não mais que ilusória8, como já vimos; é importante notar que o simbolismo da árvore é essencialmente “axial” como o da montanha; e a caverna, na medida em que é considerada como estando sob a montanha ou dentro dela, é também no eixo, onde em todo caso, não importando o ponto de vista, o centro deve sempre estar, pois é no centro que o individual é unido ao Universal.

Antes de encerrarmos esse assunto, há um ponto de linguagem a ser considerado, cuja importância do que deve ser superestimada, mas que não deixa de ser curioso: a palavra egípcia hor, que é o nome de Hórus, parece significar “coração”; neste caso, Hórus seria o “Coração do Mundo” de acordo com a designação que se encontra na maioria das tradições e que está perfeitamente de acordo com seu simbolismo geral, tanto quanto este pode ser determinado. Pode-se ficar tentado, à primeira vista, a relacionar essa palavra hor com cor, o termo latino para “coração”, tanto mais que, nas diferentes línguas, encontram-se raízes semelhantes que designam o coração, ora com aspirada, ora com gutural como letra inicial: assim, por um lado, hrid ou hridaya em sânscrito, heart em inglês, Herz em alemão, e, por outro lado, ker ou kardion em grego e a própria cor (genitivo cordis) em latim; mas a raiz comum de todas estas palavras, incluindo o último, é, na realidade, HRD ou KRD, que dificilmente seria o caso com a palavra hor; parece, então, não se tratar aqui de uma identidade real de raiz, mas apenas de uma convergência fonética — que, apesar disso, é bastante marcante. Mais digno de nota, e ligado de modo direto ao nosso assunto, é o seguinte: em hebraico, a palavra hor ou hur, escrita com a letra heth, significa “caverna”; o que não implica necessariamente um vínculo etimológico entre essa palavra hebraica e a egípcia, embora, estritamente falando, ambas possam remontar a uma origem comum, mais ou menos remota; seja como for, sua semelhança permanece de considerável interesse, tanto mais se se admite que no domínio simbólico não existe acaso. Além disso, em hebraico, hor ou har, escrito desta vez com a letra he, significa “montanha”; ora, sendo o heth, entre as aspiradas, um reforço ou endurecimento do he — por assim dizer, uma “compressão” — e expressando o heth também, ideograficamente, a noção de limite ou de fechamento, vemos que a própria relação entre as duas palavras indica a caverna como o lugar fechado dentro da montanha, tal como ela é, tanto literal quanto simbolicamente; o que nos reconduz, mais uma vez, à relação entre a montanha e a caverna, que agora teremos de examinar mais de perto.

  1. O autor está aqui retomando uma alusão feita a essa relação em sua longa resenha do livro de W. F. Jackson Knight, Cumaean Gates, uma referência ao Padrão de Iniciação no Sexto “Eneida”. Essa resenha, sob o título La Caverne et le Labyrinthe, precede imediatamente o presente artigo como capítulo XXIX em Symboles de la Science Sacrée. ↩︎
  2. René Guénon, o Homem e Seu Devir Segundo o Vedanta, capítulo 3. ↩︎
  3. Katha Upanishad, Valli 1, shruti 14. ↩︎
  4. Katha Upanishad, 3rd Valli, shruti 1 (cf. Brahma-Sutras, 1st Adhyaya, 2nd Pada, sutras 11-12) ↩︎
  5. Voile d’Isis, março de 1930. Atmā-Gītā é o nome dado ao Bhagavad Gītā quando este é considerado em seu significado mais profundo. A passagem mencionada (do artigo de Guénon Atmā-Gitā) é a seguinte: “Nārāyana, ‘Aquele que caminha (ou é carregado) sobre as águas’, é um nome de Vishnu, aplicado por transposição a Paramātmā; as águas aqui representam as possibilidades formais ou individuais. No cristianismo, o caminhar de Cristo sobre as águas tem um significado exatamente relacionado a esse mesmo simbolismo”. Nota do tradutor. ↩︎
  6. Cf. Ananda Coomaraswamy, The Darker Side of Dawn and Angel and Titan, an essay in Vedic Ontology. Qual ainda em breve será inéditamente traduzido ao português pelo Instituto. ↩︎
  7. Veja: a Grande Triade, cap. V. ↩︎
  8. Mundaka Upanishad, 3º Mundaka, 1º Khanda, shruti 1; Shvetāśvatara Upanishad, 4º Adhyāya, shruti 6. ↩︎
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