O Que é Ilusão no Advaita Vedānta?

“Brahma-satyam, jagat mithyā.”

— Śrī Adī Śaṅkarācāryaḥ

Brahma — o Absoluto — é Real, no entanto, o mundo não passa de uma ilusão. É essa a fórmula que expressa, de modo mais perfeito, o sistema Advaita de Śaṅkara, assim como é nessa fórmula que se encontra sua principal peculiaridade1 em relação a outros sistemas advaitinos indianos, sobre os quais trataremos em uma ocasião futura. Essa peculiaridade é a ilusão do mundo, “jagat mithyā” ou, em outras palavras, o mundo é tão real quanto o tecido do sonho que se desfaz sempre que acordamos para um novo dia2.

O que torna um sonho irreal? Afinal, enquanto sonhamos, essa é nossa realidade, nos identificamos com ela e nela podemos dizer “eu sou isto” ou “isto é meu” com tanta propriedade quanto se estivéssemos em vigília. No entanto, mesmo que assim seja, é absurdo afirmar que o sonho é real ou, ao menos, tão real quanto a vida que levamos quando acordados. Nos parece, portanto, prudente afirmar que o que torna um sonho irreal é sua impermanência; o homem dorme, sonha, acorda e, novamente, ali está o “eu”, que há muito tempo se deitou para dormir, permanecendo em relação às projeções da mente. Mas esse a quem eu chamo de “eu” também não permanece, ou estaríamos dizendo alguma inverdade ao afirmarmos que o homem perece3? Quem nos poderia contrariar se disséssemos que as coisas que vemos estão sujeitas, todas elas, a corrupção4? A partir disso, convidamos o leitor a olhar em volta e achar algo, uma coisa sequer, que estará onde está por toda a eternidade e que não se degenerará5. Desse modo, nos resta crer que nós mesmos e aquilo que vemos, tocamos, sentimos e ouvimos, tudo isso, não tem verdadeira diferença de um sonho.

“Brahman é totalmente diferente do universo, mas não existe nada no universo que não seja Brahman. Se qualquer objeto no universo diferente de Brahman parece existir, é irreal como a miragem que parece estar dando água no deserto.6

— Śaṁkara, Ātmabodha, v.63 (Nikhilānanda: 1978)

Para o leitor atento já é evidente, antes mesmo de ter sido mencionado, que o mundo, sendo ilusório como o sonho, pressupõe a existência de alguém que o sonhe e, em verdade, esse leitor está na mais plena razão; todo veículo precisa de um condutor, e a este damos o nome de Si Mesmo (Ātma), a Personalidade — i.e., “o princípio transcendente e permanente do qual a manifestação […] não passa de uma modificação transitória e contingente7. O Si Mesmo, portanto, não é limitado de modo algum pela manifestação. Na verdade, não é limitado por absolutamente nada senão de forma ilusória8. A definição essencial (svarūpa-lakṣaṇa) de Brahma é Ser9, Infinito10, consciência pura e ilimitada; desse modo, Ātma, enquanto aquele que se modifica sem se macular, não é diferente de Brahma senão por uma definição acidental (taṭastha-lakṣaṇa) e relativa, ou seja, uma distinção feita a partir de uma condição contingente (upādhi). O mesmo ocorre com Īśvara, o Senhor, que é Brahma quando visto em associação com Māyā — que nesse caso se apresenta como upādhi — e suas três guṇas, como tendo funções de criador, mantenedor e destruidor11.

Quanto a natureza da ilusão, podemos afirmar que ela é fruto da superposição (adhyāsa), definida por Śaṅkara como “estado de consciência cuja natureza é similar a memória que aparece da impressão de alguma experiência passada12; essa superposição tem sua natureza na ignorância (avidyā); assim, a superposição consiste em imaginar certos atributos opostos a um determinado substrato sobre ele, por exemplo, atribuir à realidade a individualidade, ou ao Ser a distinção. Consequentemente, as afirmações de tipo “eu sou um brāhmaṇa13” ou “eu estou com fome” só podem ser superposições, pois, sendo o Ser livre de qualquer distinção e mácula, não pode pertencer a nenhum varṇa, tampouco ter fome, sede, frio ou qualquer outra condição do tipo; tudo isso é superposto a ele e não realmente é qualidade do Ser.

Não tenho morte nem medo, não pertenço a nenhuma casta (varṇa), não tenho pai, nem mãe, pois jamais nasci. Não tenho amigo nem companheiro, nem discípulo, nem mestre espiritual (guru). Eu sou consciência e unidade eterna. Eu sou Śiva! Eu sou Śiva!

— Śrī Adī Śaṅkarācāryaḥ.

  1. Qualquer diferença possível entre o conceito de Ilusão em outras tradições em relação ao Advaita Vedānta parece ser realizada somente num domínio relativo, como se dá em relação à concepção Trika da Ilusão. ↩︎
  2. Nas tradições orientais, é bastante comum ver semelhanças entre sonho e ilusão. Para ilustrar, Longchen Rabjam Drimé Özer solicita que digamos a nós mesmos com toda a atenção que tudo isso que vemos é apenas um sonho. Tudo é sem verdadeira existência e incerto. ↩︎
  3. Tudo perecerá, exceto o Seu Rosto Seu é o Juízo, e a Ele retornareis!” — Al-Qurʾān, Surah al‑Qaṣaṣ (28:88). Também: “O homem é semelhante a um sopro de brisa, os seus dias como a sombra que passa” — Bíblia Matos Soares, 1956, Salmos 143.4 ↩︎
  4. Hebreus (1:10-12): “Tu, Senhor, no princípio dos tempos fundaste a terra, e os céus são obra de tuas mãos, eles passarão, mas Tu permaneces. Todos envelhecerão como uma veste; tu os envolvas como uma capa, e serão mudados. Tu, ao contrário, és sempre o mesmo e os teus anos não acabarão”. Assim também diz Heráclito, LXXVI: “A morte da terra é tornar-se água, e a morte da água, tornar-se ar, e a do ar, fogo, e vice-versa↩︎
  5. As coisas frias esquentam-se, o quente esfria-se, o úmido seca, o seco umidifica-se” — Heráclito, CXXVI. ↩︎
  6. Jagad-vilakṣaṇaṁ brahma brahmaṇo’nyan na kiṁcana; brahmānyad bhāticen mithyā yathā marumarīcikā.” ↩︎
  7. Veja “O Homem e Seu Devir Segundo o Vedanta, III, René Guénon”. ↩︎
  8. Para haver o Infinito, não deve haver limitação. Ora, se há determinação, há limitação. Logo, havendo o Infinito — isto é, Deus — não há determinação. ↩︎
  9. Não nos referimos ao ser dos filósofos modernos, mas aquele “todo cheio do que é” (Da Natureza, B8, Parmênides). ↩︎
  10. Este é o Ser Infinito que, ainda em Parmênides, “é justo que não seja incompleto: pois não é carente; não sendo, porém, tudo lhe faltaria”. E, em outro sentido, ele é a Possibilidade Universal, ou seja, a Possibilidade de Afirmação — não enquanto somente Possibilidade de Manifestação, mas também como Possibilidade de Não-Manifestação, que, em certo sentido, é uma afirmação: “O ser é […] todo termo possível de uma afirmação” — Dialética do Eterno Presente: Do Ser, I, Louis Lavelle. É o termo primeiro, pois “todo outro termo o exprime, limitando-o”. Em suma: “o Ser é”, e somente é. ↩︎
  11. Ainda em Guénon, há mais sobre as três guṇas em: “O Homem e Seu Devir segundo o Vedānta” e “O Simbolismo da Cruz”. ↩︎
  12. Convém a leitura da introdução feita pelo Śaṅkara ao Brahma Sutra Bhasya. ↩︎
  13. Diz Rumi: “Que devo fazer, ó muçulmanos, se já não me reconheço? Não sou cristão, nem judeu, nem mago, nem muçulmano. Não sou do Oriente, nem do Ocidente, nem da terra, nem do mar. Não venho das entranhas da natureza, nem das estrelas girantes. Não sou da terra, nem da água nem do fogo, nem do ar. Do empíreo não sou, nem do pó deste tapete. Não sou da tona, nem do fundo, nem do antes, nem do depois. Nem da Índia, nem da China nem da Bulgária, nem de Saqsin; não sou do reino do Iraque, nem da terra de Khorassan. Nem deste mundo, nem do próximo, nem do céu, nem do purgatório. Meu lugar é o não-lugar, meu passo é o não-passo. Não sou corpo, não sou alma. A alma do Amado possui o que é meu. Deixei de lado a dualidade, vejo os mundos num só. Procuro o Um, conheço o Um, vejo o Um, invoco o Um. Ele é o primeiro e o último, o exterior e o interior. Nada existe senão Ele”.⁠ ↩︎
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