Ortodoxia e o Absoluto nas Tradições Abraâmicas

Para uma religião ser legitimamente reconhecida como ortodoxa, deve-se encontrar, nela, uma doutrina adequada acerca do Absoluto e desenvolver uma espiritualidade compatível com essa doutrina. Sua origem precisa ser de ordem divina — não meramente humana — e essa origem deve tornar-se perceptível por meio de uma presença sacramental, manifestada tanto no milagre (intervenção divina direta) quanto na arte sagrada (inspiração de natureza transcendente).

Elementos secundários, como personagens, episódios históricos e mitos, devem ser tomados como formas e arquétipos; por isso permanecem subordinados à doutrina do Absoluto. O Islã — por ter os Profetas como referência primária e ser uma espécie de movimento de retorno à Tradição, ou seja, à fonte de seu monoteísmo de herança abraâmica —, difere em relação a outras formas de monoteísmo e, de modo muito particular, do Cristianismo.

Forma e substância

Toda religião tem direito à forma e à substância. A substância é de direito ilimitado e Absoluto: ela provém diretamente da Inspiração Divina e, por isso, suas representações — a Metafisica e a Mística — possuem uma fonte inesgotável.

A forma, representada na liturgia e na doutrina, também deriva de uma fonte transcendente, mas está inevitavelmente marcada pela temporalidade e pelo manifestado; seus direitos são, portanto, limitados. A forma lida com o terreno e com o tempo e, mesmo sendo terrena, ela representa uma possibilidade metafísica manifestada, à qual o fiel tem acesso por meio de uma participação. Se a forma muda a todo instante, a possibilidade metafísica que ela encarna fica fragilizada, porque essa possibilidade se dá através de um receptáculo histórico e institucional que confere estabilidade e continuidade. A Doutrina é propriamente a manifestação das possibilidades metafísicas no campo jurídico. É por meio dela que o fiel encontra uma certa segurança em suas crenças e ações e, caso a doutrina se altere constantemente, as possibilidades metafísicas também perdem sua estabilidade, uma vez que seu suporte também se modifica.

Não é que a substância possa mudar — longe disso. Acontece que, por ter um caráter estritamente proveniente do Absoluto, ela pode tornar-se mais refinada e sublime com o tempo, sem, porém, desviar-se de seu caráter primordial — caráter esse que toda a filosofia Perenialista procura identificar.

Pluralidade de formas

Isso pode explicar por que não existe, em todo o globo terrestre, uma única forma religiosa que detenha primazia: em cada região incide uma natureza e uma sentimentalidade determinada, de modo que cada lugar favorece o florescimento de uma forma religiosa particular. Esse fato evidencia as enormes limitações da vida terrestre — o condicionamento espaço-temporal influencia as nossas escolhas; em verdade, somente o Divino deveria orientá-las.

Converter-se de uma religião para outra não significa apenas mudar de credo ou de forma; trata-se também de substituir uma sentimentalidade por outra, pois toda religião possui um sentimento intrínseco que orienta o seu desenvolvimento histórico. Uma religião que surge em determinado lugar, ao ganhar adeptos em outra parte do globo, faz com que esses novos fiéis assumam, ainda que de modo periférico, certos traços do homem do solo originário de onde a religião emergiu. Todo muçulmano carrega um pouco da cultura árabe; todo católico, um pouco da cultura europeia. As sentenças de Cristo — “não julgueis” e “quem estiver sem pecado, que atire a primeira pedra” — exprimem precisamente essa natureza passional: Cristo sabia, a priori, que o homem tende a elevar a sentimentalidade e a temporalidade próprias como se fossem o critério supremo. Comparar a Lei Mosaica, o Corão e a Sunnah à sentença cristã é inadequado por tratarem de ordens e naturezas distintas.

Partidarismo religioso e ortodoxia

Por mais que os partidarismos, as sentimentalidades e as formas religiosas sejam terrenos e temporais — ou também exotéricos —, são demasiadamente humanos e naturais. Sem o partidarismo religioso, a maioria dos homens não conseguiria viver. Ele funciona como um véu protetor que mantém o fiel em sua tradição e como um instrumento de combate para que essa tradição se mantenha viva e ativa. Portanto, o partidarismo é também um dos aspectos da ortodoxia.

Simbolismos religiosos

As religiões tratam dos aspectos e da natureza das coisas. O Cristianismo trabalha seu simbolismo por oposição cósmica: o carnal diferencia-se do espiritual, e, por isso, o carnal é quase sempre reprovado. Aqui, o carnal é a luta constante que o cristão enfrenta para alcançar a transfiguração — ou seja, a Théōsis, em linguagem Ortodoxa —; o espiritual, a contemplação, o estado de graça.

No Islã, o simbolismo opera por analogia essencial: o carnal não é censurado por ser carnal, mas apenas quando perde a capacidade santificante. O Islã admite o carnal santificado e convive com o espiritual puro; o espiritual, por sua vez, exprime-se por analogias sensíveis nas quais o mundo físico reflete a magnitude celeste. É injusto censurar o paraíso cristão por seu caráter platônico e o islâmico por admitir o carnal: o simbolismo de ambos reflete tipos distintos de paraíso.

Pontes teológicas

Não existe ponte teológica do Cristianismo para o Islã, nem do Judaísmo para o Cristianismo. Para que uma religião se legitime, é preciso explorar uma possibilidade imediata — um mistério ainda não trabalhado. Cristo explorou a dimensão interior e do amor, em contraponto ao Deus judaico alcançado pelas fronteiras do Israel étnico; o Cristianismo surge, então, como nova dimensão do Judaísmo, simbolizada pela passagem do Velho para o Novo Testamento.

O Islã não nasce simplesmente como contraponto a uma possibilidade não explorada do Cristianismo, como alguns historiadores cristãos afirmam, mas como desdobramento de possibilidades não exploradas nas tradições anteriores, onde se misturam rigor e amor1.

Perspectivas sobre a natureza humana e a revelação

A limitação do Cristianismo, na perspectiva muçulmana, é admitir que o homem está totalmente corrompido pelo pecado e que somente Jesus pode libertá-lo. O Islã funda-se, ao contrário, na ideia da participação deiforme do homem no Absoluto: a salvação é possível na medida em que o homem possui o conhecimento do Absoluto — conhecimento fornecido pela revelação. O que o homem necessita não é um elemento ‘revelador’ externo, mas a própria revelação em seu conteúdo essencial e invariável.

O Islã reprova não o Evangelho nem a confissão trinitária em si, mas a colocação da trindade no mesmo plano da Unidade: definir Deus como trino equivale a afirmar que o Absoluto é triplo; e, se é triplo, já não é o Absoluto, pois o Absoluto só pode ser Uno. O cristão enfatiza o contentamento acidental — renúncia e sacrifício; o muçulmano enfatiza o conteúdo substancial — nobreza e bênção.

Os fenômenos específicos de uma religião não demonstram que ela seja a escolhida, mas mostram, antes, que ela reflete possibilidades salvíficas, arquétipos e moldes divinos. O cristão reconhece Jesus como Deus a partir do nascimento virginal; é esse fato que o justifica como Deus e como caminho salvífico.

O Islã afirma a existência do Real — Uno e Absoluto —; por isso o profeta não precisa ser um “super-homem”: ele vem confirmar uma Verdade anterior a si, já proclamada por profetas anteriores. Maomé não precisa apresentar-se como manifestação do Absoluto, pois segue o exemplo de Abraão, que participa do Absoluto sem desprezar as coisas menores. Em contraste, o Cristianismo, ao tornar Cristo manifestação do Absoluto e ao alinhar-se à cosmologia greco-romana, tende a afastar seu lado humano — posição que o Islã rejeita explicitamente, como, por exemplo, quando se diz que “o fogo não queima; só Allah faz queimar”.

Acusar o Islã de inércia ou esterilidade revela que, para tais críticos, o Absoluto estaria concentrado no imanente. Para os muçulmanos, a história e o espírito temporal interessam apenas na medida em que se encaminham para o Último Dia ou para a Origem, já que ambos refletem as mais altas possibilidades do Absoluto.

O Cristianismo privilegia o sublime e o sacrifício mais do que o equilíbrio e uma abstração do Absoluto; por isso possui uma vocação ascética legítima — representada pelo monasticismo e pelos Padres da Igreja — que corresponde ao seu arquétipo celeste.

Do ponto de vista islâmico, os cristãos “cristificaram” Deus: a adoração é impossível sem, antes, passar pelo Homem-Deus; para o cristão é inconcebível adorar a Deus sem reconhecer Jesus como Deus. Os muçulmanos, por sua vez, amam Jesus e Maria e adoram o Deus único, mas recusam colocar a Trindade no mesmo plano da Unidade divina. O cristão sofre, com efeito, uma espécie de “ciúme monoteístico”, onde o Monoteísmo deve passar, necessariamente, por Jesus.

Toda religião se fundamenta em uma revelação que aponta para o Infinito e para a Vontade Celestial. Enquanto o Islã tem em vista a Verdade Salvífica, o Cristianismo enfatiza uma benevolência salvífica — legitimada, na tradição cristã, pelo nascimento virginal, que prova a singularidade do arquétipo salvador. O Islã enfatiza a Verdade salvífica: para o muçulmano, a Verdade, por si só, é evidência suficiente; ela não exige uma manifestação temporal adicional para ser conhecida.

Três modos salvíficos nas tradições abraâmicas

Nas três religiões abraâmicas, há um ternário básico — Medo, Amor e Conhecimento —, cada uma privilegiando um desses modos.

No Cristianismo Primitivo, os Padres do deserto representam o elemento do Medo: austeridade, rigor ascético e a constante lembrança de que o desvio é castigado e pode provir de Satanás. Porém, Na Idade Média, florescem outros acentos — místicos, que enfatizam o caminho do coração (amor) e filósofos, que desenvolvem vias pelo conhecimento. No conjunto, o Cristianismo tende, por natureza, ao amor, enquadrando, por extensão, conhecimento e medo. O Cristianismo enfatizará a manifestação divina e a salvífica. Ele é, por excelência, a religião da qual a tendência inata é o Amor, que enquadra por extensão o Conhecimento e o Medo.

O Judaísmo, em sua forma mais antiga, surge sob o signo da Lei (Torá) e do Pacto (Berith); sua ênfase inicial é a obediência e o rigor legal — o elemento Medo —, embora a tradição posterior, com o florescimento do Talmud e da Cabala, abra espaço para uma via intelectual e mística. Ainda assim, o pacto permanece primordial.

O desenvolvimento do Islã volta-se para o elemento do Conhecimento: tudo, na tradição islâmica, converge para a aceitação da Verdade do Absoluto e para o saber do Profeta, com consequências práticas na vida humana; paralelamente, mantém-se a dimensão do Medo, institucionalizada pela Sharia.

  1. O profeta empenhou-se no resgate do monoteísmo, enquanto, de forma magistral, incorporava no Islã as características discursivas e simbólicas do deserto, o que resultou na criação de uma nova possibilidade religiosa. ↩︎
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