Os símbolos e a linguagem das Escrituras Sagradas podem ser de difícil compreensão para alguns; por isso a religião recorre a sistemas filosóficos e dialéticos que a antecedem — não por serem superiores, mas para tornar os símbolos e as escrituras mais palatáveis, ao incorporá-los à linguagem humana mediante uma síntese com a linguagem sagrada.
No entanto, podemos decepcionar-nos ao ler a obra de algum Santo cristão ou de algum walīy muçulmano: pregam um ascetismo1 exagerado e, por vezes, mostram uma aparente limitação intelectual, doutrinal ou dialética. Há, porém, um fator que explica tudo: o exagero corretivo.
Tanto o monge cristão quanto o sufi ou o salafī vivem numa coletividade que, por uma lei cíclica, decai; pela gravidade é empurrada para baixo, de modo que a religião — em seu aspecto formal (doutrina, liturgia, sharīʿah, sacramentos) — também decai, pois a forma está sujeita ao tempo e a coletividade está imersa na forma. Cada tradição carrega seu aspecto geográfico e temporal: o cristianismo latino, sensual e imagético; o islã árabe, seco e abstrato. A coletividade é regida por um líder com ambições, paixões e projetos pessoais de poder. Junta-se assim uma coletividade decaída, guiada pela agitação apaixonada do líder. O exagero corretivo dos Santos ou a extrema secura dos ʾawliyāʾ nascem nesse burburinho da ciclicidade e surgem como um remédio amargo e necessário.
Jesus diz: “Desde os dias de João Batista até agora, o Reino dos céus é tomado à força, e os violentos o arrebatam” (Mateus 11:12). O Alcorão responde no mesmo tom: “Combatei-os até que não haja mais fitna (perseguição, idolatria) e a religião seja toda de Allāh.” Essa violência cristã não se manifestou na guerra propriamente dita, mas numa violência do corpo terreno: o monge vende tudo, come pão e água, não se casa, dorme no chão. Não que todo cristão deva fazer isso, mas era o contraponto necessário a um catolicismo barroco cada vez mais embebido em excessos.
No islã, nem todos combateram — é evidente. Houve, sim, guerra contra idólatras para a preservação do tawḥīd; mas a mensagem esotérica disso são os walīy dizendo a todos os muçulmanos: “voltem ao Uno”.
Podem parecer exigências ascéticas simples e inúteis, que nada têm a ver com a verdade primordial; mas, do ponto de vista concreto da limitação humana, são úteis e indispensáveis. A função do Santo não pode ser outra senão essa: dar o bom exemplo. Assim, o excesso torna-se a linguagem compreensível para uma coletividade decaída — o melhor instrumento pedagógico. É lamentável que essa forma de espiritualidade seja vista como simplória, porque a função que ela exerce é precisamente a de conduzir de volta à tradição.
Indubitavelmente, as religiões não têm a inteligência como via espiritual comum, mas sim a fé e a virtude. Isso se explica facilmente: a alma não precisa ser inteligente para se salvar. A fé e a virtude não produzem inteligência, mas produzem pureza intelectual. Inversamente, a inteligência não produz virtude nem fé, pois o puro intelecto tem essas duas em sua própria substância. É óbvio que, do ponto de vista da piedade, a virtude supera a inteligência; contudo, é difícil admitir que o faça em detrimento da verdade, embora se possa imaginar verdades que nada têm a ver com a salvação.
O monge cristão e o sufi podem não conhecer Aristóteles nem Ibn ʿArabī, mas conhecem Allāh ou Cristo com uma certeza que nenhum filósofo tem. O exagero deles não é ignorância: é pedagogia do absoluto para tempos de decadência. O sacrifício do Santo é misericórdia para sua geração.
Entendemos, por ascetismo, toda trajetória que busca superar a decadência da forma. Ele parte de uma inspiração Divina e, por tanto, está inteiramente imerso no aspecto de Substância (Arte Sagrada e mística) das religiões.
- Entendemos, por ascetismo, toda trajetória que busca superar a decadência da forma. Ele parte de uma inspiração Divina e, por tanto, está inteiramente imerso no aspecto de Substância (Arte Sagrada e mística) das religiões. ↩︎






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