O Arquétipo do Profeta

No Islã, Muḥammad é assimilado ao lógos (λόγος) enquanto tal, o que não é nenhum absurdo, já que toda religião faz isso com seu respectivo profeta. Mas os profetas anteriores a Muḥammad exercem uma função dentro do próprio Islã, já que o Islã se propõe a reestruturar e a ser uma síntese dos monoteísmos anteriores a ele. O Islã não inventa o monoteísmo do zero; ele se vê como o “selo”. No Islã, existem três elementos: fé (al-īmān, الإيمان), lei (al-islām, الإسلام), caminho (al-iḥsān, الإحسان), ou īmān (إيمان), sharīʿa (شريعة), ṭarīqa (طريقة), com cada um dos profetas anteriores exercendo um dos três elementos: Abraão, a fé; Moisés, a lei; e Jesus, o caminho.

Como já tratado anteriormente, cada um dos elementos tem um aspecto predominantemente próprio e absorve os demais por extensão. O Islã, por sua vez, se propõe a ser um equilíbrio entre eles, o que fica expresso em sua doutrina dos três elementos.

Os profetas possuem, sem dúvida, todas as virtudes; mas, na ótica islâmica, Muḥammad é a síntese clara e expressa dessas virtudes e qualidades. Pode-se até dizer que determinada virtude corresponde a determinado profeta, porém esse profeta também possui outras virtudes, segundo o aspecto que lhe é primordial. Cada profeta é um aspecto do Absoluto no setor cósmico que lhe é reservado. O partidarismo religioso de que já tratei anteriormente, como um elemento crucial para a virilidade religiosa, faz os muçulmanos verem Muḥammad como o lógos enquanto tal.

Um aspecto compensatório do Islã é a pequenez que o próprio profeta impôs a si mesmo, uma simplicidade que prova sua sinceridade. Um impostor qualquer que viesse depois de Jesus Cristo não deixaria de declarar que ele também é filho de Deus. O Profeta admitiu e deixou expresso no Corão o nascimento virginal de Cristo, o que não lhe era de forma alguma vantajoso. Em nenhum momento Muḥammad se colocou como um super-homem, mas como um homem comum que recebeu uma missão divina.

“Tendes no mensageiro de Allah um belo exemplo”, diz o Corão. As virtudes que observamos nos muçulmanos mais piedosos não seriam praticadas se o próprio profeta não as tivesse também praticado. É inconcebível que essas virtudes tenham sido emprestadas de outra religião, pois elas têm um modo de ser especificamente islâmico. Se os muçulmanos igualam outros profetas a Muḥammad, não é por mau-caratismo, mas pelo partidarismo religioso que é próprio de toda religião.

O Islã dá ênfase ao homem-divino, que é o homem primordial, imagem do Criador, mas não a divindade. O Cristianismo opta pelo Homem-Deus, que é Deus tomando forma humana. Existem, então, dois aspectos de santidade: um formal e outro substancial. A santidade formal se dá pelo rigor da forma divina; o santo é tão perfeito que é Deus enquanto tal. A santidade substancial se realiza pela similaridade com a forma divina. O muçulmano dirá: os atos daquele que possui um caráter divino só podem ter qualidade divina, mas não são Deus enquanto tal. A santidade formal não é possível sem a santidade substancial. O cristão que acredita na santidade formal deslegitima atos ambíguos que a santidade substancial abarca, por não seguirem o rigor formal. Muḥammad, apesar de ter muitas esposas, era casto, não luxurioso; apesar de fazer guerra contra os inimigos da fé, pregava e fazia tratados de paz. Essas ações provam não que ele era hipócrita, mas que era um homem — é a pequenez que ele próprio se impôs por pura humildade. É também um exercício de fé para o crente perceber que o último dos mensageiros de Deus era tão homem quanto ele. Estar engajado nos acidentes e intempéries do mundo, mas, ao mesmo tempo, ter a preferência pela essência e pelo frescor divino, é o que legitima a mensagem de Muḥammad.

O Islã insiste na pobreza do Profeta, que aparece como uma quintessência das virtudes. No Islã, a pobreza ganha grande nobreza, que vai da Sunnah até a arte; a grandiosidade das mesquitas é ofuscada por uma sublime monotonia. A recitação do Corão é a fonte dessa pobreza grandiosa e sublime; recitá-lo é beber da santa pobreza. A secura do estilo corânico gera força no crente que o recita. Isso, inclusive, é um dos motivos pelos quais a arte islâmica não caiu no individualismo da arte cristã. A tenacidade e a coragem do árabe são fruto de sua pobreza; seu ethos é o do deserto.

O Santo pauperismo não é encontrado somente no Islã, mas também no Evangelho, embora este não possua a monotonia e a secura do Corão. A mensagem evangélica lembra que o mundo não merece o máximo, mas o mínimo. A pobreza evangélica é movida pela gratidão; a corânica, pela secura que se torna, mais tarde, tenacidade.

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