Mefistófeles em certa altura de Fausto, diz:
“O gênio sou que sempre nega”
Essa afirmação tem um peso especial, enquanto expressa uma verdade metafísica. Quando falamos na negação pura e total, referimo-nos ao Nada Absoluto, pois — mesmo no apofatismo mais radical — o Absoluto é sempre afirmação pura. A afirmação, no entanto, expressa unicamente as qualidades, aquilo que determina, mas jamais o princípio de indeterminação, pois esse só pode representar um afastamento da existência arquetípica daquele ente em sua fixidez essencial.
É importante considerar que a Essência é, antes de sua determinação primeira no nome de Deus, pura qualidade, sem divisão, sem partes ou unidades. É aquele cuja quididade é ser, existência, antes de qualquer outro atributo — atributos que só podem ser na relação de Deus com a manifestação.
Há o Real, entre Ele e o Nada há você, mas não há você, há Ele, e nunca houve o Nada. A manifestação acaba por ser, portanto, um movimento do Absoluto em direção ao Nada, esse movimento é, portanto, uma materialização progressiva, uma quantificação constante. A fase final desse ciclo chama-se, nas tradições hindus, Kali-yuga, um período de dissolução e degeneração, mas que, em contrapartida, é também o fim de uma ilusão. Mefistófeles se insere aqui como essa força entrópica de degeneração e negação constante da qualidade, ele é propriamente a materialização, o caminhar do atual ao potencial.
A Unidade e o Nada nos soam semelhantes, nada podemos afirmar deles, exceto que um é Infinito e o outro é a própria finitude. O Nada é tão limitado que dizer ‘Nada’ não significa nada, enquanto que dizer ‘Infinito’ é afirmar tudo. É importante ter em mente que o Absoluto não é simplesmente a soma das coisas manifestas, mas também não é a soma dos princípios da manifestação — a esse segundo damos o nome de Deus, pois Deus é o nome da soma dos nomes d’Ele. A Essência, o Absoluto, portanto, é o conjunto das possibilidades de manifestação e de não manifestação, al-Dhāt.
Pode se pensar, no entanto, que o Absoluto é algo distinto desse princípio entrópico e que, portanto, há alguma espécie de rivalidade. Acontece que, na verdade, esse princípio entrópico está contido no Absoluto, pois nada Lhe pode estar alheio, de modo que a vitória do Real é inevitável. Quando Mefistófeles diz que ‘tudo que vem a ser é digno só de perecer’, ele demonstra a ingenuidade própria daquele que é incapaz de enxergar a Unidade principial. Mefistófeles não percebe que o perecimento deste mundo é uma vitória para o Altíssimo — exaltado seja! —, tudo perecerá, exceto a face d’Ele, ainda que nada perecerá, pois tudo é no Intelecto d’Ele.





Deixe um comentário